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Cariocas vivem em função do futebol


É sabido que brasileiros são fanáticos por futebol. São tão fanáticos que tratam aquilo que deveria ser apenas uma forma de diversão como obrigação cívica e social. isso acontece em quase todo o país mas é intensificado no Rio de Janeiro, terra dos times mais famosos e mais bem sucedidos do país.

Aqui no Rio de Janeiro, gostar de futebol é regra de etiqueta. A sociedade tratou de se dividir em quatro grandes grupos baseados nos quatro times mais bem sucedidos: Flamengo, Vasco, Fluminense e Botafogo. Obrigatoriamente, os cariocas devem pertencer a um desses quatro grupos. Quem se recusa a fazer parte de um desses quatro, sofre preconceito. Se assumir que não curte futebol a coisa piora, semelhante ao que acontece com ateus em uma nação altamente religiosa.

Se os torcedores do Bangu e do América recebem chacota, mesmo gostando de futebol, por torcerem por times fadados ao fracasso e consequentemente à impopularidade, para os que assumem passar longe de qualquer gramado ou televisores com telas esverdeadas é reservado o pior: preconceito.

Como eu falei, assumir que não curte futebol é tratado como uma heresia, como os ateus são tratados em sociedades altamente religiosas. Não gostar de futebol no Rio de Janeiro é considerado uma ofensa. É como se uma pessoa te convida para ir a uma festa ruim organizada pelo próprio anfitrião e você dizer na cara dele que não gostou da festa. Cariocas entendem que o futebol é  melhor que tem a oferecer e você tem que gostar ou pelo menos tentar fazer parte da festa, mesmo sentado quieto.

Os não-torcedores reclamam de muito preconceito sofrido pela não adesão ao maior ópio do carioca depois da religiosidade (cariocas são altamente religiosos). Há relatos de gente que perdeu emprego por não gostar de futebol ("não teve 'espírito de equipe' nas atividades extra-trabalho") e outros relatos falam em perda de amigos ou até mesmo surgimento de inimizades por isso.

É grave, pois não há lei na Constituição que obrigue uma pessoa a gostar de futebol. Se há uma lei social ela é informal e cobrada de forma livre pelos próprios cidadãos que sonham em ver o seu lazer favorito se transformar em uma unanimidade, dando a ilusão de que o gosto pelo futebol seria biológico (o que é uma asneira sem tamanho).

O ideal que o preconceito acabasse e que as pessoas assumissem que nem todos gostam de futebol. Será que os cariocas gostariam que alguém os obrigasse a gostar, por exemplo, de basebol? Pensem nisso e não transformem o prazer por uma forma de diversão em fonte de injustiças e de inimizades.

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