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Charrete parada há muito tempo no caminho

Um homem viu uma charrete antiga parada no caminho. A essas alturas, o burrico que a carregava já faleceu e a charrete está tão antiga que até a cadeira está com o estofado mofado e um pouco saindo de seu lugar.

- Moço, me conta um pouco dessa charrete. É verdade que ela ficou parada no meio do caminho? - disse um homem a um caipira que descansava numa proximidade.

- Ah, sim, ficou parada, sim, senhor! - disse o caipira, com seu sotaque típico. - O burrico é que empacou, depois levaram ele e a charrete ficou sei lá por quê.

- E o burrico, o que ocorreu? - perguntou o forasteiro.

- Ih, meu amigo, ele já morreu faz tempo. Nem sei como, só sei de uns terceiros. Acho que morreu de doente, deve ter comido fruta ruim. - disse o caipira.

Os dois ficaram em silêncio. O forasteiro olhava a charrete, com curiosidade, embora não houvesse aspecto diferente que lhe chamasse a atenção. Na verdade, o forasteiro estava refletindo nos tempos em que a charrete era mais nova e funcionava para os passeios e transportes de gente de um lugar para outro na roça.

Desta vez, foi o caipira que, depois de ficar olhando para o céu - na verdade, estava pensando também em alguma coisa, sabe-se lá o que é - , passou a perguntar.

- Na sua roça, moço, as charretes também costumam parar no meio do caminho?

"Roça, o Rio de Janeiro?", pensou o forasteiro, tentando controlar o riso.

- Ah, sim. Na minha roça as charretes param, sim. Antigamente tinha um monte de percurso longo, da Penha para Praça Seca, da Cascadura para a Gávea, de Bananal, na Ilha do Governador, para Madureira, da Penha para o Méier, e hoje o coronel da roça, quer dizer, o "prefeito", com seu secretário de Transportes, decidiu que os percursos parariam no meio do caminho por causa de um cartão eletrônico.

- Nossa, os percursos agora param no meio por causa do tal cartão eletrônico? Por que que isso ocorre, senhor?

- É porque criaram umas tais de "linhas alimentadoras", que agora se dividiram em duas. As linhas de cá param no meio do caminho e as linhas de lá também. Isso porque você terá que pegar, no tal meio do caminho, uma espécie de trenzinho, igual àqueles dos parques de diversões, só que sem trilhos, são todos cobertos e têm um ventilador que solta ar gelado por dentro. E parecem foguetes de desenho animado, sabe? Chamam isso de BRT.

- Sim, sim, continue. - disse o caipira, curioso. - Agora essa de chamar de "alimentadora" um troço desses é que dá bicho na cabeça. Linha alimentadora para mim é barbante comestível e vitaminado.  Mas deixa isso pra lá. Continue.

- Aí você paga o tal cartão eletrônico. É como numa quermesse. Você paga a roda gigante e a Montanha Russa com uma só tarifa. É assim que funciona, mais ou menos. E, como no parque de diversões, você tem limite de horário, se estiver dentro daquele horário, você vai da Penha para Madureira e depois pega o percurso Madureira para o Méier ou para a Praça Seca.

- E por que tem limite de horário? - perguntou o caipira.

- É, porque, assim como no parque, a promoção vale por uma noite, o passeio de charrete pelos percursos que param no meio do caminho só permitem o uso do cartão eletrônico, que chamam de Bilhete Único, durante cerca de duas horas. O problema é que tem muita carroça nas vias carroçáveis da roça, né, e aí, você sabe, se o trânsito empacar o cartão eletrônico perde a validade. E aí você tem que pagar duas contas, entende bem?

- Acho que eu entendo, sim. Mas como a sua roça é muito complicada. O coronel de lá não deve ser homem de visão mesmo. Deve pensar muito pequeno para cuidar de uma cidadezinha com a sua e deixar os problemas crescerem. - concluiu o caipira.

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