Frequentadores da Livraria Leonardo da Vinci admitem que Rio ficou provinciano

Ironicamente, deu no jornal chamado Piauí, nome de um conhecido e ultraprovinciano Estado da Região Nordeste. A Livraria Leonardo da Vinci, com sérios problemas financeiros, graças à concorrência das vendas pela Internet (sobretudo da Amazon), corre o risco de fechar suas portas, se não houver um comprador ao mesmo tempo com muito dinheiro e natural identificação à causa.

A livraria foi fundada por Vanna Piracini (ainda viva) e Andrej Duchiade (morto há 50 anos), e administrada pela filha Milena Duchiade. Localizada desde 1956 no subsolo de um edifício comercial na Av. Rio Branco, próximo ao Largo da Carioca, a livraria surgiu em 1952 e não era só um local de venda de livros, mas um importante espaço cultural, ponto de encontro de intelectuais e um excelente distribuidor de livros importados e obras de alto conceito, muitas delas raras.

Pois a reportagem mostrou alguns depoimentos de importantes frequentadores, preocupados com o fim da livraria, que admitiram que o fim da livraria simboliza a já crescente decadência cultural do Rio de Janeiro, cada vez menos inclinada para ser capital, cada vez com vocação para ser província. 

Benjamin Moser, norte-americano que viveu muito tempo no Brasil, autor de uma biografia sobre a escritora Clarice Lispector - ela mesma "integrante" do acervo que movia vidas dentro da livraria - , ficou tão abismado com a ameaça de fechamento da Leonardo da Vinci que concluiu que "o Brasil está pirando", além de afirmar que o Rio de Janeiro perde para São Paulo em mercado literário.

"Há tempos em que o Rio enxerga um futuro cada vez menos de capital, cada vez mais de província", reclama Moser acrescentando que "desistir da (livraria) Leonardo da Vinci é, de certa forma, desistir do Rio de Janeiro".

Fernando Gabeira, famoso jornalista e escritor, que se envolveu no sequestro político do embaixador estadunidense no Brasil, Charles Elbrick, em 1969, e hoje apresenta um programa de reportagens suas na Globo News, também fez o seu lamento contra a ameaça do fim da livraria. "A cidade fica mais acanhada. Fecha-se mais uma janela para o cosmos", disse.

Luís da Costa Lima, professor da PUC-RJ e organizador do livro de ensaios de vários autores (inclusive ele), intitulado Teoria da Cultura de Massa (publicado originalmente em 1969), também classificou o Rio de Janeiro como um lugar provinciano:

"O Rio se torna cada vez mais uma província, já não bastassem o futebol decadente e as universidades aos pedaços. Sobra apenas a beleza natural, mas estão fazendo uma força enorme para acabar com ela", protestou Costa Lima.

Outra prova de que o Rio de Janeiro está provinciano é dada, evidentemente, pelo "especialista" do ramo, Eduardo Paes. Sabendo da ameaça de fechamento da livraria, cujo acesso é prejudicado pelas obras do VLT que percorrerá a Av. Rio Branco, o prefeito do Rio de Janeiro orientou seu secretário de Cultura, Marcelo Calero, a procurar Milena Duchiade.

A Prefeitura do Rio de Janeiro ofereceu de graça um corredor do Teatro Carlos Gomes, na Praça Tiradentes, para a instalação da livraria. Milena recusou, firmemente, lembrando que o lugar tem comércio fraco e de pouca circulação. 

Nós deste blogue ainda inferimos que o entorno da praça é um lugar perigoso e miserável, e a área está tão decadente que há até incêndios atingindo prédios antigos, por causa da péssima instalação de energia elétrica no lugar. Mas vamos agora ao que Milena disse a respeito da "generosa" sugestão do prefeito Paes:

"No dia que você me vir pondo a Leonardo da Vinci nesse lugar, pode me internar. Não vai ninguém lá", protestou a empresária. Depois de receber telefonema da redação de Piauí, o secretário Calero confirmou que deu a sugestão, mas recusou-se a dar entrevista ao periódico sobre o assunto.

Concluímos então que essa ideia de que o Rio de Janeiro está ficando provinciano não é conversa de internauta zangado, mas uma realidade compartilhada por muita gente. E se muitos cariocas ainda estranham quando atribuem a Cidade Maravilhosa a essa triste qualidade, é porque eles mesmos estão contagiados pelo provincianismo que faz os ignorantes ignorarem sua própria ignorância.

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