Fim da Gama Filho transforma Piedade num bairro impiedoso

Não temos mais Cazuza para cantar o Blues da Piedade, mas a impressão é que a música cairia bem com o bairro carioca, depois que o antes imponente e simpático campus da Universidade Gama Filho - apesar de ter sido uma instituição particular e seu fundador ministro da ditadura militar - fechou as portas por conta de irregularidades e crise financeira.

O entorno da Piedade e de Quintino, bairros que ficam no trajeto entre Méier e Madureira, ou, mais precisamente, entre Engenho de Dentro e Cascadura, tornou-se uma área muitíssimo perigosa, onde assassinatos podem ocorrer até mesmo à luz do dia, obrigando seus moradores a viverem um estado de sítio permanente.

Nem a proximidade da Linha Amarela, no lado do Engenho de Dentro, e do BRT Transcarioca, do lado de Madureira, ajudam a melhorar a movimentação dos bairros, pois a insegurança, a decadência e o tédio reinam na Piedade e em Quintino, que se tornam tristes redutos de monotonia suburbana da Zona Norte carioca.

Os dias em que muitos jovens percorriam o entorno da Gama Filho, uma movimentação que chegou a fazer com que a Viação Mauá criasse a linha 534D São Gonçalo / Piedade, há anos extinta e depois reativada e vinda de Alcântara (mas sem boa parte de sua razão original de ser), eram saudosos. Vários ônibus de fretamento levavam parte dos alunos da UFG para outras localidades.

Sem essa movimentação toda, que ocorria até nas manhãs de sábado, o bairro se tornou triste. Como se não bastasse a tristeza dos ônibus com pintura padronizada que fazem com que humilhados ônibus da Viação Redentor circulassem, com seu visual de embalagem de remédio, na linha 636 Saens Peña / Gardênia Azul que melancolicamente entra pela Rua Manuel Vitorino, onde ficava a UFG.

Sem os 12 mil alunos que em média circularam pelo local, o comércio fechou. Por outro lado, os bandidos, com muito menos medo de agirem em plena luz do dia, num tempo em que há assaltos constantes até mesmo no movimentado Centro, têm mais condições de fazer a festa, assaltando transeuntes ou vendedores e eliminando desafetos. A Piedade agora só tem uma companhia permanente: o medo. Quanta impiedade.

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