Rádio do "Rock de Verdade" tira sarro com Joy Division

 A Rádio Cidade e seus locutores engraçadinhos que tentam agora uma dicção calminha - mas não esqueceram o falar afescalhado dos locutores pop - agora tira sarro de tudo quanto é nome conhecido do rock, como se isso garantisse uma boa aceitação entre os roqueiros autênticos que passam milhas longe dos 102,9 mhz e do endereço http://www.radiocidade.fm.

A vítima da vez é o Joy Division e seu finado vocalista, Ian Curtis (1956-1980), morto lamentavelmente em plena ascensão na carreira, mas pelo menos livre de encarar tão vergonhosa cilada armada pela "Rádio Disney com guitarras" (já que a Cidade quer se livrar da sombra da JP, apesar de manter os locutores da última franquia carioca da rádio paulistana, usemos outra fonte de inevitável comparação).

Pois a ambiciosa emissora que se acha "dona" da cultura rock no Grande Rio, mesmo sem ter pessoal especializado em rock - quem tá lá são uns mauricinhos e patricinhas que tiram onda de roqueirões da pesada - veio com um programa de debate chamado "Debate Rock", um nome ambicioso demais que só mesmo rádios pseudo-roqueiras são capazes de enfatizar. Porque rádio de rock de verdade nem sempre batiza todo o programa com a palavra "Rock", só mesmo quando necessário.

Aí vemos a propaganda do tal programa - que parece calcado num noticioso da Jovem Pan AM (retransmitido em FM, antecipando a futura fusão das duas sintonias no rádio FM) que tem os reaças Reinaldo Azevedo e Rachel Sheherazade, em que a Rádio Cidade cinicamente usurpa o prestígio do grande cantor inglês e sua banda (que depois da morte dele se transformou em New Order), com livro biográfico e camiseta co a ilustração do álbum Unknown Pleasures, de 1979.

A atitude oportunista da Rádio Cidade tem dois motivos muito importantes para levar em conta, exceto entre os "roqueirões" de memória curta que ouvem a rádio bovinamente sem saber a diferença entre punk e metal e acham que a emissora "sempre foi rádio de rock".

Primeiro: entre 1977 e 1980, época em que o Joy Division existiu, nos primeiros meses com o nome de Warsaw, a banda inexistia para a Rádio Cidade, que optava por outra "praia", o pop descompromissado e eclético. Em 1980 nem para dizer que Ian Curtis morreu enforcado a Rádio Cidade se lembrou.

Por incrível que pareça, tudo bem que fosse sempre assim. Seria muito chato que todo mundo fosse roqueiro e a Rádio Cidade, sabemos, foi muito mais legal como rádio pop. Mas como se encanou desde 1995 - descontando alguns intervalos - em ser "rádio rock" pela dor-de-corno de não ter tido o prestígio da Fluminense FM, ela comete outros deslizes.

Segundo: a Rádio Cidade, se toca Joy Division, é lá no "escurinho" do programa Clássicos do Rock que, por incrível que pareça, não é um programa de clássicos do rock, mas de flash back comum.  Só vão tocar a "digestível" canção "Love Will Tear Us Apart", que até antecipa os arranjos que marcariam o som do New Order. Afinal, queiram ou não queiram, a Cidade é uma rádio de hit-parade, "só sucessos", estão ligados? 

Ou alguém tem esperança de ouvir, nos 102,9 mhz e sob a apresentação dos afrescalhados locutores engraçadinhos que tentam não fazer gracinhas, de que vai ouvir coisas mais sombrias como "Isolation", "Atrocity Exhibition", "Transmission" e "Wilderness", a agitada "Digital" ou a melancólica "Atmosphere", isso a qualquer hora da programação diária? Nem se fizer despacho na esquina da Estrada Francisco da Cruz Nunes com a Caetano Monteiro, em Niterói!


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