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Rio de Janeiro e a ditadura do futebol

Não adianta negar. No Rio de Janeiro, futebol é prioridade. Ele regula as relações sociais e representa o maior entretenimento no estado, que já não tem muitas opções de lazer. 

Os cariocas são "educados" desde criança a transformar o futebol em prioridade. No estado dos times mais bem sucedidos de um país que já superestima o futebol, torcer por um dos quatro principais times locais: Flamengo, Fluminense, Vasco e Botafogo, é regra de etiqueta e por mais incrível que possa parecer, um sinal de simpatia e respeito humano.

Sim, pois o carioca entende que gostar de futebol é gostar de pessoas. Gostar de futebol passa uma falsa imagem de alegria e de participação social. Afinal, se mais de 90% gosta de uma forma de lazer, é simpático participar do que entusiasma a maioria.

Mas cariocas, sendo boa parte elitista ou de educação elitista (não confundam elitismo com "boa educação" - elitismo pode ser considerada uma forma de má educação da elite), não costumam ser democráticos, dando direito a grupos determinados de obter privilégios e impor regras para o restante da sociedade. E como boa parte dessa elite adora futebol, achou conveniente impor esse gosto para toda a sociedade fluminense, sobretudo a carioca.

E como fica quem não curte futebol? Bom, na verdade, o futebol só se fortalece porque é uma obrigação social. As características do futebol não permitem que por si só seja um esporte popular. Para ele ser quase uma unanimidade depende de algum artifício, de algum tipo de isca ou condição. E a obrigação social, somada a catarse do grito (gritar pelo gol é a unica situação onde o grito não é considerado uma gafe) servem como pretexto para que o futebol seja admirado.

Na verdade a maioria não curte de fato futebol. Entre os mais de 90% que assumem que curtem futebol, acredita-se que entre estes, cerca de 60%(incluindo muitas mulheres) de fato não curtam, preferindo fingir ou participar de eventos, por motivos de sociabilização. Se assumissem que não curtem, ficariam sozinhos e teriam dificuldades na obtenção de benefícios, principalmente no emprego e na vida afetiva.

Esses não-torcedores enrustidos, para se sociabilizar tem que assumir publicamente que gostam de futebol, escolhendo um time, comprando camisetas e utensílios relacionados e parando diante da TV nos dias de jogo, principalmente em tempos de copa, mesmo que não entendam nada do que se passa em campo. Afinal, o legal para eles é estar no meio de gente, gritando e pulando.

Os que possuem a coragem de assumir que não curtem futebol acabam se isolando. Perdem direitos, criam mal entendidos e até fazem inimizades, pois acabam desobedecendo uma importante regra social, ao se recusar a seguir a manada futebolística.

Por isso que a maioria dos não-torcedores prefere se calar e fingir que curte futebol. Se sentem incapazes de enfrentar a correnteza e preferem seguir com ela, mesmo que o destino seja o despenhadeiro. Pelo menos se um dia caírem do penhasco, não cairão sozinhos.

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