"Boa sociedade" carioca decreta Lei do Silêncio

A "boa sociedade" do Rio de Janeiro, liderada pela elite carioca e por simpatizantes no restante do Estado do Rio de Janeiro e em outras partes do país (geralmente Sul e Sudeste), determinou agora a Lei do Silêncio.

Não, não! Não se trata de proibir a barulheira noturna, que continuará acontecendo livre e solta, sobretudo com trogloditas urrando e berrando feito monstros no cio depois que um time carioca favorito deles (Flamengo, Fluminense, Vasco ou Botafogo) fizer algum gol.

O "silêncio" em questão se refere à proibição de reclamar de problemas profundos, sobretudo relacionados às arbitrariedades de políticos, tecnocratas, empresários e executivos de mídia que impõem barbaridades que têm que ser aceitas para o bem do sucesso das Olimpíadas Rio 2016.

Afinal, o Rio 2016, mais que um evento esportivo - e bem mais, se percebermos que os brasileiros terão mais um desempenho medíocre, com muito menos medalhas, enquanto o chefão Carlos Arthur Nuzman fica com seus paletós e a Márcia Peltier - , é, acima de tudo, um evento turístico.

Se você reclama que o mercado botou aquela rádio pop para ser a "FM do rock de verdade", com seus locutores engraçadinhos e sua mentalidade "só sucesso", aceite. Se você acha que as livrarias, livrarias e centros culturais estão se extinguindo e os que aparecem com esse nome só mostram best sellers bobos (como livros para colorir e diários de "vlogueiros"), no caso de livrarias, e atrações popularescas, no caso de centros culturais, aceite. Criaram até uma praia artificial, que o povo faça sua "orla" nela, dentro de seu laguinho ou por baixo de seus chuveirões.

Até seus amigos andam lhe abandonando nas mídias sociais por causa de seu senso crítico. Até quem é culto está resignado com a perda de espaços e anda evitando aqueles que reivindicam a sua recuperação. Fazer o quê, há quem esteja sonhando com as ruínas de Atenas, querendo também fazer as suas. Vejamos:

1) Os que não encontram uma rádio de rock que preste em FM (vá dizer que uma rádio com nome de Cidade e com aqueles radialistas poperó é realmente uma rádio de rock!), que se contentem com webradios que não dão para sintonizar fora de casa. Não dá para levar laptop para a praia porque ele enguiça com o salitre, e o celular gasta carga e créditos sintonizando rádio digital, o que dá uma conta amarga só por meia-hora de sintonia, que ainda assim "cai" o tempo todo.

2) Os que não encontram um espaço digno para a renovação da MPB ou têm que se contentar com os espaços mínimos de divulgação, que não conseguem ter divulgação digna na mídia - o jornal O Dia, por exemplo, bota uma nota lá num cantinho pequeno e olhe lá - e os programas obscuros em canais comunitários da TV paga.

3) Os que perdem livrarias têm que se contentar com os sebos que, por enquanto, existem nas praças e ruas do Centro carioca, mas nem todos os vendedores são profundos conhecedores de obras literárias. Geralmente são entendedores apenas do óbvio, de best sellers, fora autores manjados como Machado de Assis e Clarice Lispector, ou pelo fato do vendedor saber que Chico Buarque também escreve livros, sua compreensão não vai além do que é conhecido. E, além disso, os livros para colorir já estão invadindo os sebos de livros.

4) Os que perdem bons teatros têm que se contentar com os que restam. E, se alguém quer esperar uma grande peça brasileira de qualidade, é bom se contentar com comédias urbanas americanizadas, isso quando não são as franquias da Disney que se transformam em tolas montagens feitas aqui. Nos teatros, ver que a chance média de ver boas peças se dará de dois em dois meses é triste.

5) Para que centros culturais relevantes, se dá para fazer a tal "cultura de rua"? Chegamos ao ponto de grandes artistas se apresentarem na calçada, já que não se podem mais apresentar em casas de espetáculos, entregues a ídolos popularescos, que se apresentam até em espaços que eram reservados para a vanguarda cultural, como Circo Voador e Fundição Progresso. Se deixarmos, só terá "baile funk" e "sertanejo" no Teatro Municipal. E, com essas ruas cheias de marginais agindo livremente até em pleno dia...

Pior é que não dá para reclamar. Até quem há dois anos concordava com nossas queixas passou a nos chamar de "arredios", "chatos" e "insuportáveis". De repente todo mundo passou a buscar uma falsa felicidade nas mídias sociais, tudo para parecermos felizes e sorridentes para os gringos que virão ao Rio de Janeiro no próximo ano.

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