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Ninguém é obrigado a gostar de futebol. Mas alguém precisa avisar isso aos cariocas, que não sabem desta lei

O Rio de Janeiro é uma ditadura do futebol. Embora seja uma obrigação relativa em quase todos os estados do país, é no Rio de Janeiro que o futebol se torna uma condição sine qua non para a vida social. Numa atitude comparável ao racismo e à homofobia, quem assume não curtir futebol ou torcer para um time diferente dos "4 Fantásticos" (Flamengo, Fluminense, Vasco e Botafogo), é violentamente discriminado, perdendo amigos e até mesmo direitos importantes.

Como uma lei sem legislador, a própria população se dedica voluntariamente a fiscalizar o gosto pelo futebol. A intenção é fazer do gosto pelo futebol uma unanimidade para dar uma ilusão de que "está no sangue", fazendo parte do organismo biológico das pessoas consideradas "normais". É como se fosse uma adaptação para aquela famosa música do baiano Dorival Caymmi, trocando a palavra "samba" por "futebol". Não curtir futebol é considerado um defeito e não-torcedores não raramente são considerados "psicopatas" ou portadores de algum tipo de sadismo. 

Futebol é uma obrigação tão autoritária que a sociedade é dividida entre os "4 Fantásticos". Para ser incluído socialmente, você tem que fazer parte do grupo de torcedores de cada um dos 4 times mais populares. Para flamenguistas, é salutar que alguém seja vascaíno, botafoguense ou tricolor. Mas é altamente incômodo não gostar de nenhum dos 4 times. 

Essa regra social é tao rígida, que até as mulheres são induzidas a gostar de futebol pois sabem que assumir publicamente o desprezo pelo esporte mais popular do país (e pelo jeito única forma de lazer do cada vez mais monótono Rio de Janeiro) lhes exclui automaticamente do convívio social. Conheço  pessoalmente várias mulheres que na prática detestam futebol mas tem que fingir que gostam para serem incluídas socialmente.

Mesmo assim, com todo o rigor, muitos se recusam a admitir na teoria o que fazem na prática: a discriminação contra os não-torcedores. Não há textos na internet em que os cariocas assumem a obrigação de gostar de futebol ou o desejo de impor esse gosto. 

Muitos textos até invertem os valores, sugerindo a tese absurda de que os torcedores é que sejam os "excluídos sociais" (numa manobra semelhante a "cristofobia" e a "heterofobia"do carioquíssimo Eduardo Cunha). Mas quem vive no Rio de Janeiro, mesmo sem alardear, sabe muito bem que torcedores são privilegiados num sistema social em que o futebol é dever e prioridade máxima.

Muita gente gosta de fingir democracia para não pegar mal, mas no cotidiano nada se vê dessa maravilhosa liberdade de se divertir como quiser. Mesmo que a Constituição Federal diga que ninguém pode ser obrigado a não ser em virtude da lei, vem as regras sociais par impor o que a Constituição não impõe e o gosto pelo futebol se torna um compromisso social obrigatório com direito a implacáveis penalidades para os recusantes.

Por isso que no Rio de Janeiro, o futebol parece ter um número de torcedores muito maior do que os que tem de fato. Muitas pessoas que não curtem futebol, receosas da exclusão social, fingem gostar e até compram apetrechos relacionados aos times escolhidos, assistindo a jogos sem entender o que se passa sobre a grama verde. Assiste, na verdade acreditando estar cumprindo um dever social.

Mas isso é muito fácil para quem abre mão do prazer e do direito de ser como é. A psicologia mostrou que imitar a maioria é um caminho seguro para a sobrevivência e embora ninguém admita, é lógico que modistas sobrevivam melhor que não modistas, pois obtém com maior facilidade os direitos cedidos pela facilidade de sociabilização. E o futebol, no Rio de Janeiro, apesar de supérfluo como diversão, se torna uma necessidade de sobrevivência social, graças a teimosia em transformar este supérfluo em prioridade máxima e falso motivo de orgulho de um povo.

Resta aos cariocas admitirem essa ditadura do futebol e a fobia doentia contra os que não curtem. Aos poucos, mulheres, negros, deficientes e gays conquistam o respeito social e a aquisição de direitos. Agora é a vez dos que desprezam o futebol lutarem pelo direito de viver em sociedade, com todas as suas necessidades básicas sendo satisfeitas, incluindo a de viver em grupos. 

Está mais do que na hora dos cariocas entenderem que futebol não é sinônimo de simpatia e civilidade e que os não-torcedores não são bichos selvagens a serem expulsos na marra. Se os cariocas se acham no direito de gostar de futebol, devem, antes disso, respeitar (que não é sinônimo de desprezo, como acontece muito na prática) quem não gosta de futebol. 

Não raramente aquele não-torcedor pode ser na verdade aquela pessoa legal, amiga que sempre estará do lado das outras nas horas de maior dificuldade. E vocês ainda vão recusar a oportunidade de contar com uma companhia agradável, só porque ele não gosta de futebol?

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