Novo CD de Anitta fez jovens se esquecerem que Luiz Carlos Miele morreu

Yes, nos temos hit-parade! O oba-oba que se tem em torno do novo CD de Anitta, Bang!, fez a juventude se esquecer que o Rio de Janeiro tem um patrimônio cultural a ser zelado, se não fosse, é claro, a intolerância das gerações mais novas para a palavra "cultura", que para elas só vale para o junk food "cultural" que consomem.

Pessoalmente, nada temos contra Anitta, muito simpática e bonitinha, mas o que ela faz é pop comercial e não vale essa repercussão toda do novo disco, que mais parece jogada de marketing. Achar que conquistamos o mundo por macaquear o que se faz de pior nos EUA é algo que, só para usar uma classificação mais educada, é uma enorme gafe.

Pois fomos bombardeados com a morte, ocorrida ontem, de Luiz Carlos Miele, aos 77 anos, depois de sentir um mal súbido em sua casa, na Gávea. O que ele fez em sua carreira não cabe em obituários, que precisam ser rápidos e concisos, até mesmo quando tentam ser menos superficiais. Miele havia sido ator, produtor, diretor, humorista, contador de histórias, e testemunhou todo aquele ambiente dinâmico e vibrante da Bossa Nova, tendo sido uma das brilhantes testemunhas desses tempos dourados.

A genialidade dele se atesta quando, nos primórdios do videoteipe, Miele aparecia "ao vivo", numa piscina do Copacabana Palace no sol de tarde carioca, no ano de 1959, para anunciar, no horário nobre da noite, a programação da TV Continental, numa época em que a hoje chamada TV aberta carioca só tinha três emissoras (Tupi, Rio e Continental; a TV Globo estava apenas no papel) e uma programação bem mais diversificada e interessante do que a TV paga de hoje.

Com seu senso de humor habitual, Miele anunciava o lançamento da TV Continental, ele diante de um ambiente ensolarado, para telespectadores que ligavam a televisão em preto e branco e transmissão sofrível - até esponja de aço, usada para lavar panelas, era usada para "melhorar" a sintonia - , numa noite em horário nobre.

Ele foi um ator como tantos, um produtor inigualável, um diretor dedicado, um humorista peculiar, um contador de histórias envolvente e um agitador cultural dos mais dinâmicos. Gravou teatro e TV, agitou a vida noturna carioca e procurou estimular a beleza e o lirismo nas barulheiras jazzísticas do Beco das Garrafas.

A morte de Miele é a morte de um grande nome que deu valiosas contribuições para a cultura carioca, em que a já não mais nova Bossa Nova soa entediante para ouvintes acomodados com funqueiros, breganejos e sambregas.

O falecimento de Miele é, para muitos, apenas uma nota fúnebre para a "gente bonita", mesmo a de nível universitário. E tem gente que se acha "muito inteligente" com sua memória curta, que não tem sequer 0,01% da poderosa bagagem que teve o brilhante Miele.

Ficamos aqui agradecendo a Miele pela sua contribuição de fazer um Rio de Janeiro mais moderno.

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