Manequins negros de ponta-cabeça também são "o caldeirão"?

Há poucos dias, uma cena causava horror para os frequentadores do Shopping Rio Sul, localizado em Botafogo, na Zona Sul carioca.

A grife Reserva, que tem o apresentador Luciano Huck como sócio, montou um estande em que a expressão "Liquidação Reserva Mini" aparecia de cabeça para baixo numa vitrine, enquanto dois manequins negros aparecem pendurados de cabeça para baixo.

"Reserva. Sempre um mau gosto para montar vitrines e passar mensagens. Práticas de tortura e racismo em pleno shopping. E não sou só eu que está falando. Eu nem tinha reparado na vitrine até uma senhorinha negra passar ao meu lado e falar para si mesma: 'que horror!'", escreveu sabiamente o internauta Douglas Soares.

Luciano Huck é tido como um "filantropo". Pelo menos é a impressão que os incautos têm quando veem o Caldeirão do Huck com o apresentador reformando carrinho para doar para pessoas carentes - dizem boatos que ele toma de volta, dando apenas uma "indenização" simbólica para os "beneficiados" - ou dando escolinha reformada para professoras comovidas.

Há uma gíria funqueira - Luciano Huck é considerado o maior divulgador do gênero no país - , "é o caldeirão", que quer dizer "é o máximo". E o "funk", sabemos, é essa ruindade musical tenebrosa, esse mercado explorador, que faz caricatura do povo das favelas, e aí perguntamos se pôr manequins negros de ponta-cabeça também "são o caldeirão".

Que consciência social é essa do apresentador que permite que uma grife mostre manequins com cabeça de macaco e de veado com a frase "O preconceito está na sua cabeça". O propósito da frase é duvidoso, porque a mensagem nada faz para conscientizar as pessoas.

Mas o pior está em dois manequins negros pendurados de ponta-cabeça. Que denúncia isso faz? Nada. Provocatividade? Desde que uma geração de intelectuais festivos, que vieram, entre outras barbaridades, defender o "funk carioca" como se fosse o suprassumo do ativismo e da modernidade musical, o "mau gosto", a provocatividade como um fim em si mesmo, só vieram para incomodar e causar horror, sob a desculpa de "provocar um debate".

Pois quando a provocação vira fim em si mesma, não provoca, não instiga, não traz debate. Mas traz um cheiro de preconceito social, vindo de gente que jura que "está desprovida de preconceitos". O verdadeiro preconceito está nas cabeças dessa gente "provocativa" - intelectuais, apresentadores de TV, empresários de moda, publicitários e jornalistas culturais associados a - , mas não se traduz em palavras, mas em atitudes.

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